Somar a renda de duas ou três pessoas é o caminho mais rápido para sair de um apartamento de R$ 250 mil e chegar em um de R$ 450 mil. Os bancos aceitam, a conta fecha, a chave sai. O que quase ninguém explica é o que vem depois.
Na composição de renda, o banco soma a renda bruta dos participantes e libera uma parcela que costuma respeitar o limite de 30% desse total. Quem entra não é fiador. Quem entra vira comprador, devedor e proprietário, com o nome na matrícula do imóvel e na dívida, na mesma medida que você.
A vantagem é real. Você alcança um imóvel melhor localizado, pode somar o FGTS de mais de uma pessoa e ainda equilibra a análise quando uma das rendas é instável ou informal. Para muita gente, é a diferença entre comprar agora e comprar daqui a cinco anos.
O problema aparece quando a relação muda. Divórcio não desfaz financiamento. A sentença ou a escritura de partilha resolve a situação entre vocês e no cartório de imóveis, mas não obriga o banco a nada. Para tirar um nome do contrato é preciso nova análise de crédito e um contrato novo, com aprovação da instituição. Se quem fica com o imóvel não sustenta a parcela sozinho, o banco diz não. Sobram três saídas: seguir pagando juntos, apresentar outra pessoa com renda para assumir o lugar, ou vender o imóvel.
Enquanto os dois nomes estiverem no contrato, o atraso de um respinga no CPF do outro. Inclusive no de quem já saiu de casa e nunca mais pisou lá.
Acordo de gaveta não protege ninguém. Ele vale entre as partes e não muda uma linha do que o banco tem registrado. E quando a parte de um é transferida para o outro, ainda pode entrar imposto na conta, seja ITBI quando existe pagamento envolvido, seja ITCMD quando a transferência é doação.
Tem outro detalhe que passa despercebido na hora da assinatura. Quem entrou só para ajudar na renda passa a constar como proprietário de imóvel residencial. Isso pode travar o acesso dessa pessoa ao Minha Casa Minha Vida e ao uso do FGTS quando ela quiser comprar o imóvel dela. O irmão que entrou para dar uma força pode estar abrindo mão da própria vez.
Nada disso significa que comprar junto seja um erro. Significa que a decisão precisa ser tomada com as regras na mesa. Antes de assinar, faça três coisas: simule a parcela contra a renda individual de quem pretende ficar com o imóvel, deixe registrado por escrito quem paga quanto e o que acontece se alguém quiser sair, e avalie honestamente se um imóvel um pouco menor cabe no seu bolso sozinho.
Se a parcela não cabe individualmente em nenhum dos dois, o risco já está montado antes mesmo da primeira prestação vencer.
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